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UM BREVE PASSEIO PELO CAIS DA SAGRAÇÃO – POR: JOSé NERES - 20.10.2017 às 15:15:52

Por: Joseane

UM BREVE PASSEIO PELO CAIS DA SAGRAÇÃO – por: José Neres

UM BREVE PASSEIO PELO CAIS DA SAGRAÇÃO

José Neres*

* Professor da Rede Pública e da Rede Particular de ensino. Graduado em Letras (UFMA), especialista em Literatura Brasileira (PUC-MG), especialista em Pedagogia Empresarial e Educação Corporativa (Uninter), mestre em Educação (UCB) e doutorando em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional (Uniderp). Ocupante da cadeira 36 da Academia Maranhense de Letras.





1 Reproduzimos aqui nosso artigo Montello: Múltiplo Homem de Letras, publicado originalmente no Jornal do Maranhão, nº 94 – agosto de 2017. p. 15



INTRODUÇÃO

Josué Montello é um dos mais importantes prosadores brasileiros do século XX. Sua produção literária é extremamente vasta e permeia diversos gêneros literários, desde o romance e a novela até a literatura infanto-juvenil, passando pelo ensaio, pelo teatro e pela poesia. No ano de 2017, o polígrafo maranhense, caso estivesse vivo, completaria cem anos de idade. Vários eventos ocorreram em comemoração a essa data tão significativa para as letras maranhenses. Como parte das homenagens pelo centenário natalício de Josué Montello, a Universidade Estadual do Maranhão escolheu o romance Cais da Sagração, um dos livros mais lidos da lavra do autor, como leitura obrigatória para o concurso vestibular.

Neste breve estudo, iremos analisar o romance Cais da Sagração a partir de sua estrutura e da essência de sua narrativa. Conforme já avisamos quando estudamos Adélia Prado, este roteiro não substitui de forma alguma a leitura integral do romance. É importante que você leia o livro e tire suas próprias conclusões. O estudo está dividido em duas partes: a primeira é dedicada a comentar a vida, a obra e o estilo do autor; a seguir será estudado o livro em questão.



JOSUÉ MONTELLO

O dia 21 de agosto é uma data especial para todas as pessoas que gostam de literatura e que admiram a produção literária de um dos mais profícuos intelectuais maranhenses de todos os tempos. Foi nesse dia, em 1917, que nasceu, na Rua do Sol,

na casa 119, uma criança que, alguns anos depois, iria tornar-se uma das mais expressivas personalidades das letras brasileiras: Josué de Sousa Montello.



Filho do casal Antônio Bernardo Montello e Mância de Sousa Montello, o garoto, que começou seus estudos na Escola-Modelo Benedito Leite e fez os estudos secundários no Liceu Maranhense, sempre foi reconhecido por seus professores e colegas como aluno dedicado, atencioso e talentoso. Mergulhado, por força do destino, em um universo de leituras clássicas, o próprio Josué Montello confessou que desde muito cedo decidiu que iria dedicar-se às letras e que com palavras e livros faria o alicerce que sustentaria toda a sua carreira. E Isso foi feito.

Após beber nas fontes dos maiores nomes da literatura nacional e universal, Montello, aos 19 anos, durante breve passagem pelo Pará, publicou, em parceria com o amigo Nélio Reis, seu primeiro livro, intitulado História dos Homens de Nossa História. Mas quatro anos antes, mal completado o primeiro lustro de vida, viu seu nome pela primeira vez impresso em jornais como autor de um texto, ao publicar um artigo sobre Educação, a pedido de Antônio Lopes, seu professor de Literatura. Logo após a publicação de seu livro de estreia, o nome de Montello começou a ser divulgado nos círculos literários de várias cidades do Brasil.



Mudando-se para o Rio de Janeiro no final de 1936, o Jovem escritor começa a conviver com alguns dos mais respeitados nomes da intelectualidade nacional, exerce diversos cargos públicos, colabora com diversos periódicos e começa a construir uma sólida carreira de ficcionista e de ensaísta, é premiado diversas vezes por instituições e acaba sendo eleito para a Academia Brasileira de Letras, instituição na qual posteriormente iria ocupar o cargo de presidente.

Extremamente atento a tudo o que ocorria no seu entorno e observador das muitas mudanças políticas, culturais e sociais, Montello resolveu registrar os principais acontecimentos do qual tomou parte em diários que depois foram publicados e que hoje se constituem em importantes documentos para pesquisadores interessados nos detalhes da história do Brasil quem nem sempre foram comentados em jornais e/ou e documentos oficiais. Nas milhares de anotações feitas por Montello é possível reconstituir parte do intrincado cenário político de diversas décadas.

Embora tenha escrito também crônicas, peças teatrais, poemas, obras infanto-juvenis, contos, novelas, ensaios, historiografia e crítica literária, são os romances de Josué Montello que são mais lembrados quando se trata de fazer um levantamento de suas obras mais significativas. Navegando por temáticas variadas, o escritor se notabilizou por construir narrativas que prendem o leitor em um emaranhado de peripécias muito bem articuladas e que tem seus múltiplos nós desatados no momento exato de levar o leitor a aproximar-se do clímax do romance.

Poucos são os escritores brasileiros que demonstraram tanto domínio da técnica da narrativa longa quanto Josué Montello. Em seus livros, é possível visualizar as cenas descritas e também fazer um passeio literário pelas ruas e becos de uma de sua musa mais recorrente: a cidade de São Luís. Trabalhos como Os Tambores de São Luís, Cais da Sagração, Os Degraus do Paraíso, Largo do Desterro, Uma Sombra na Parede e Os Degraus do Paraíso são exemplos bem acabado de como um escritor de talento é capaz de transformar o espaço narrativo em cúmplice da própria história que está sendo contada.

Embora menos comentados, os textos curtos de Montello também são extremamente bem construídos. Um bom exemplo disso são as novelas enfaixadas no volume intitulado Um Rosto de Menina, nas quais é possível identificar uma mescla da densidade do estilo Machadiano com a leveza da narrativa de um Humberto de Campos e acidez contundente de um Nelson Rodrigues. Em suas novelas e contos, Montello tenta mostrar tanto a superficialidade quanto o âmago das relações humanas, deixando claro que muitas vezes a verdade foge aos olhos e aos demais sentidos humanos, escondendo-se nas frestas de ações quase imperceptíveis. É o que ocorre em O Monstro, uma novela de altíssimo nível e que nada fica a dever aos grandes mestres da ficção mundial.

Cônscio de sua importância para a cultura não apenas de seu Estado mas também para toda a literatura nacional, o próprio escritor tratou de deixar para os futuros estudiosos de sua obra algumas informações necessárias para os primeiros contatos com seus trabalhos artísticos. Basta ler seu relato intitulado Confissões de um Romancista, que faz parte do primeiro volume de Romances e Novelas, publicado pela Editora Nova Aguilar, em convênio com o Instituto Nacional do Livro, para que se tenha uma ideia do modus operandi desse escritor que fazia da palavra sua grande companheira de jornada.

No dia 15 de março de 2006, quando estava próximo a completar seu nonagésimo aniversário, Montello cumpriu sua missão na terra, mas deixou como herança para todos, mais de uma centena de livros sobre assuntos variados. Agora, no ano de seu centenário de nascimento, melhor presente que poderia ser dado a ele é pegar alguns desses livros e lê-los com a certeza de que essas páginas, com todas as suas nuances saíram da imaginação de uma das melhores mentes de nossa terra.



CRÍTICAS SOBRE O AUTOR

Josué Montello é um escritor conhecido em todo o Brasil e lido em diversos países. Sobre ele diversos estudiosos da literatura brasileira já escreveram suas críticas. O professor e crítico literário Massaud Moisés comenta que:

O objetivo do ficcionista é reconstituir o quadro de costumes de sua cidade natal, São Luís do Maranhão, em dada época. De onde um certo regionalismo citadino, de respiração universal, em que o retratista dos habitantes do velho burgo maranhense trai alguma subjetividade, que a força do romance lhe faculta, sem prejudicar o painel social esboçado e a fragrância dos instantâneos dramáticos, ou seja, nas palavras do autor em O Diário da Manhã (1984), “um vasto mural, refletindo os problemas e as angústias de /seu/ tempo. (MOISÉS, 1989, p. 474).

Franklin de Oliveira, estudioso que muito estudou a obra montelliana e foi contemporâneo do grande romancista maranhense, esclarece que:

Quando Montello começou a escrever – somos da mesma geração –, a sociedade maranhense já era uma sociedade vegetativa. Esta é a razão objetiva pela qual a sua saga compreende a busca da identidade maranhense perdida. Os principais romances de sua edda têm todos datas contemporâneas: Os Tambores de São Luís, inicia-se em 1915; a Décima Noite, em 1916; Os Degraus do Paraíso, em 1918. O de data mais próxima é Cais da Sagração, cronologicamente situado nos estertores da década de 1960 – e é o réquiem pela Praia Grande, o símbolo do poder econômico maranhense. Mas todos esses romances, através do switchback, remetem ao passado. (OLIVEIRA, 2017, p. 54)

A professora e historiadora Agostinha Régia da Silva lembra que ler a obra de Montello é fazer um passeio pela capital maranhense. Ela comenta que.

História e Memória se misturam, no entanto, na obra montellina, onde o autor usa muito das fontes, das narrativas históricas para inventar sua São Luís-Memória, sua cidade perdida e eternamente resgatada pela memória e escrita literária do autor. Usando “argumentos históricos”, Josué Montello construiu uma obra onde História e Memória se entrelaçam e ajudam a construir a imagem de uma São Luís negra, se pensarmos seu romance de maior repercussão, Os tambores de São Luís. (SILVA, 2016, p. 56)







PASSEANDO PELO CAIS DA SAGRAÇÃO







Figura 1 Vista panorâmica do Cais da Sagração. Fonte da imagem: Internet.

Cais da Sagração, juntamente com Os Tambores de São Luís e Noite sobre Alcântara são os três romances mais lidos e estudados na vasta obra de Josué Montello. São três livros que trazem a essência da obra Figura 1 Vista panorâmica do Cais da Sagração. Fonte da imagem: Internet.

Em Cais da Sagração, Josué Montello traz de volta às letras o conhecidíssimo enigma de Capitu, desta vez na figura de Vanju, uma prostituta que conquista o coração do rude mestre Severino. A grande dúvida da obra – Vanju traiu ou não seu marido? – não é respondida, bem com a que diz respeito à masculinidade de Pedro, que acaba transformando-se em um outro mistério para a posteridade. Como homem do mar, mestre Severino apresenta um código de honra que pode não estar de acordo com o da maioria dos leitores, deixando, desse modo, alguns pontos de aparente incoerência. Ele mata por desconfiar da infidelidade, mas ele próprio dá mostras de ser também infiel. É capaz de matar, mas incapaz de eximir-se da culpa. Uma personalidade fascinante, que envolve o leitor da primeira à última linha do livro. (NERES, 2008, p. 79.)


Questões Estruturais

Cais da Sagração está inserido no chamado gênero narrativo e deve tecnicamente chamado de romance. Seu enredo e fragmentado com um tempo não-linear e construído em forma de flashback, ou seja, de recuos no tempo. Isso pode confundir um pouco o leitor por causa do ir e vir das ações ao longo da história. O romance está dentro da estética modernista, mas apresenta alguns resquícios da abordagem realistas. Sobre o uso do tempo nesse romance, Franklin de Oliveira comenta que:

Ao contrário dos demais romances da saga maranhense de Montello, Cais da Sagração não traz data. No entanto é fácil admitir que sua ação se desenvolva entre os anos de 1960 e 1970. Pode-se inferir que assim seja pela descrição da agonia da Praia Grande, bairro da periferia marítima de São Luís, edificado numa depressão conquistada ao mar que foi o centro dinâmico da burguesia mercantil do Maranhão. Mas a sua agonia não é uma data limite por que o romancista, utilizando-se do switchback, abarca quase meio século da vida de Mestre Severino e do Maranhão. (OLIVEIRA, 2017, p. 50-51)



Técnica Narrativa

Habilidoso com as palavras, Josué Montello utilizou-se da antiga técnica do in media res para narrar seu livro. Essa técnica consiste em começar a história de um ponto em que o começo do livro não coincide com o início da história e logo depois o texto vai se desenrolando para o texto ganhar sentido. Em alguns momentos, a leitura desse livro se assemelha à montagem de um quebra-cabeça no qual as peças se encaixam para formar o todo narrativo. Isso exige mais atenção do leitor, mas ao mesmo tempo torna a leitura mais interessante.



Enredo

O livro traz a história de Mestre Severino, um rude homem do mar que, mesmo vivendo maritalmente há anos com Lourença, apaixona-se por Vanju, uma prostituta, com quem acaba se casando. Severino sonha em ter herdeiro a quem possa ensinar todos os segredos do mar, porém, para seu desespero, nasce uma menina.

Ciumento, Severino começa a desconfiar da fidelidade de Vanju. Mesmo sem ter provas do adultério da esposa, ele decide cumprir um acordo entre o casal, que previa que caso uma das partes traísse, poderia ser morta pela pessoa prejudicada. Após anos na prisão, Severino se vê novamente livre e volta para a casa onde ainda o espera Lourença, que nunca abandonou o lar e sempre cuidou da família paralela de seu antigo consorte.



Os olhos de Severino estão agora voltados para seu neto Pedro, seu herdeiro natural e a quem deseja ensinar tudo o que sabe sobre o mar. Porém o rapaz apresenta alguns trejeitos efeminados, o que muito desagrada ao avô, que decide voltar para casa enfrentando toda a fúria de uma tempestade que se forma, mas ele já não tem forças nem saúde para dominar a embarcação, então só pode contar com a ajuda do neto para que o barco não afunde.

[Franklin de Oliveira] vai considerar Cais da Sagração o mais poemático dos romances montellianos, falando do “mar maranhense, o marulhado mar do Maranhão” e ressalta Mestre Severino, para ele, Franklin, “o grande personagem axiológico da saga montelliana. A vida, para Mestre Severino, “não é uma soma de hábitos, mas de atos, resoluções, deliberações, determinações, decisões. Tem o seu ethos próprio, que se não fosse de um homem do povo, dir-se-ia amantado em Avicebrón, o malaguenho extraordinário para quem a vontade é a fonte da vida. (CRUZ, 2017. P. 15)




PERSONAGENS PRINCIPAIS



MESTRE SEVERINO – É o protagonista do romance. Homem rústico e que vê o mundo a partir de um prisma ético próprio, Severino é uma personagem envolvente e cercada de defeitos e de qualidades morais. Entre as qualidades estão a sinceridade, a honestidade e a capacidade aceitação dos próprios defeitos. Mas, por outro lado, ele também apresenta características tidas como negativas: é machista, preconceituoso, homofóbico e avesso às inovações técnicas e tecnológicas.





De certa forma, Severino funciona como uma espécie de protagonista investido no papel de um anti-herói, mesmo que não se encaixe perfeitamente nesse perfil, sua relação com Vanju, com Lourença e com as demais personagens é oscilante, indo desde o mais pleno lirismo até a total falta de senso, atingindo as raias da loucura e levando-o a cometer o crime que norteará parte da narrativa. É esse constante antagonismo de ações que faz com que a figura de mestre Severino seja tão interessante durante a leitura da obra. Se por um lado ele é cáustico e duro nas relações familiares e sociais, por outro ele demonstra ser um trabalhador honesto e imbuído do desejo de defender aquilo no qual acredita. O estado de saúde precário e as adversidades pelas qual passou mais fortalecem suas ideologias de vida do que modificam suas concepções ao longo do texto.

Mestre Severino, barqueiro, mesmo sendo pobre, trabalha por conta própria, e a mulher que vive com ele, não é empregada dos outros. Ela cultiva uma horta para sua subsistência, cozinha, lava, passa. Depois do casamento de Mestre Severino com Vanju, torna-se doméstica de sua rival, a qual não a ajuda em nada. (ROCHA, 1997, P. 26)


VANJU – Bonita, sensual e extremamente vaidosa, Vanju é uma prostituta que cai nos encantos de mestre Severino e acaba casando-se com ele. Além da beleza, ela representa para ele também a esperança de um herdeiro homem, que é o sonho do velho homem do mar. O fato de nascer uma menina e de haver uma hipotética relação entre Vanju e um outro morador da localidade acaba transformando uma relação baseada em reciprocidade e afeto em uma usina de desconfiança que acaba de modo trágico.

A bela, jovem e até certo ponto misteriosa figura de Vanju serve como ponto de partida para Montello reconstruir, a seu modo e a seu estilo, o enigma de Capitu desenvolvido no século anterior por Machado de Assis. Por outro lado, alegria, a elegância, a consciência da beleza e da sensualidade somados ao ato da maternidade servem como contraponto para a esquálida, porém essencial figura de Lourença, que dona de “uma beleza desmaiada”, não pode dar a Severino o que ela mais desejava: um herdeiro.

No Cais da Sagração, Vanju se apresenta como alguém desajeitada que não pode se ocupar de seu filho. Isto é revelado durante um diálogo com Lourença.

“É você que vai criar minha filha. Eu sou a mãe, mas não tenho jeito. Você tem e muito: a gente vê isso toda hora, principalmente na hora do banho. Nem pegar na menina eu sei: parece que o neném vai se quebrar no meio quando está na minha mão. Você não: você sabe!”

Mestre Severino a classifica como uma mãe indiferente, entretanto admite que no início do casamento era uma mulher afetuosa. Vanju não esconde a carência afetiva, a ausência de amor que a faz sofrer, e em vão suplica a Lourença para conversar com ela. (ROCHA, 1997, p. 31)




LOURENÇA – É a companheira de Severino antes do aparecimento de Vanju. Aparentemente havia sido uma bela mulher, mas sua beleza, desde o início da narrativa, já faz parte do passado. No decorrer da história, pode-se perceber que Lourença, apesar de aparentemente apagada e submissa, é essencial para o desenrolar da narrativa. É ela quem cuida com desvelo da casa de Mestre Severino, da filha e do neto dele e inclusive de Vanju, que a substitui nas preferências do protagonista. É a Lourença que quase sempre as demais personagens do romance recorrem quando precisam de apoio ou de proteção.

De certa forma, Lourença acaba se tornando o ponto de equilíbrio entre as outras personagens e, por outro lado, quando comparada com Vanju, esse contraste pode servir para marcar a transição entre as mudanças pelas quais passava a cidade. Assim, em uma leitura mais simbólica, Lourença representaria a simplicidade, a calma e a

decadência da antiga São Luís, enquanto que Vanju seria um reflexo da nova cidade que surgia, jovial, alegre e bela, porém pouco confiável.



PEDRO – É o neto de mestre Severino. Sobre o garoto paira uma dúvida dentro da narrativa com relação a sua suposta homossexualidade. Desde quando começa a aparecer na história, Pedro chama a atenção da família por não querer brincar com os brinquedos que lhe eram dados, preferindo divertir-se com bonecas e outros brinquedos tidos como tipicamente femininos. Isso incomoda mestre Severino, que como já foi dito, apresenta comportamento homofóbico. Pedro não deseja seguir a tradição dos homens da família e sonha em ser artista. É uma das poucas personagens do livro sobre o qual o narrador não se aprofunda e evita usar seu poder de onisciência. O trecho abaixo traz um dos momentos da conflituosa relação entre Mestre Severino e seu neto.

Na rua, Mestre Severino deu um empurrão mais forte no rapaz, para que passasse adiante na calçada estreita. E quase à esquina, de mãos trêmulas, respiração ofegante, custou levar o cigarro à boca, sempre com o neto caminhando à sua frente. Para tentar acender o fósforo, parou um momento e nisso se amparou na parede, tonto, mais desfigurado, ao ver que o Pedro, com o mesmo ombro penso e o mesmo jogo de corpo, debaixo da luz que pendia do poste, ia repetindo na calçada o andar afeminado do Davi. (MONTELLO, 2017, p. 323).



MONTELLO COM A PALAVRA

Em diversos momentos, o próprio Josué Montello comentou seus romances. Em entrevista à pesquisadora Vera Figueiredo Rocha, quando foi perguntado sobre o desejo de Mestre Severino de ter um herdeiro, o romancista respondeu que:

O caso de Mestre Severino é aquele que quer ser perpetuado através de uma profissão – a de barqueiro. As condições adversas impedem a mulher de exercer esta profissão. Nisto reside o motivo de preferir ter um filho homem que pudesse herdar seu barco. Eu sou contra o termo “machista”, “feminista”. O homem é um companheiro da mulher, ele representa a segurança. O marido é considerado como um refúgio. Não há machismo, tudo se resume na constituição biológica do ser.

Em outro momento, ao comentar a produção de sua obra romanesca, Montello, comentou o seguinte:

No Cais da Sagração adotei a técnica do flashback, com as sucessivas interrupções do fluxo linear da narrativa, que frequentemente se volta sobre si mesma, para apanhar um relato pregresso de importância capital na ação romanesca. Mas tive o cuidado de que esta ação romanesca continuasse presente no espírito da exposição, para não

suscitar a perplexidade do leitor, desorientando-o no correr da leitura. (MONTELLO, 1986, p. 50)

Pode-se ver então, que Josué Montello tinha total consciência do que fazia em sua obra. As tramas dos enredos não são acidentais e têm como objetivo compor todo um cenário romanesco.



COMENTÁRIOS GERAIS



Cais da Sagração é um dos melhores e mais completos livros de Josué Montello. Nesse romance ambientado na São Luís da passagem da década de 1960 para 1970, tempos de muitas transformações urbanas, sociais e comportamentais na cidade, o romancista acaba colocando, a partir das observações tanto de seu narrador quando da personagem principal, um pouco de suas preocupações com o destino de São Luís.

A cidade nova parece começar a se projetar sobre as tradições da antiga cidade, alterando não apenas a geografia física, mas também, e talvez principalmente, a geografia humana. Os costumes são outros. As relações sociais vão se modificando e tudo isso passa diante do olhar perplexo de um Mestre Severino que se vê perdido no meio desse redemoinho de situações.

Os contrastes entre as novas concepções de vida e as tradições se refletem nas relações conflituosas entre as personagens. Mestre Severino, Vanju, Lourença, Pedro, Davi e todos os outros representam de alguma forma o inevitável encontro entre as tradições e as modernidades. E esse cenário é bastante explorado pelo talento de Josué Montello.

Quem ainda não leu o livro deve lê-lo com atenção total às metáforas montellianas, pois nada ali aparece apenas por aparecer. Tudo tem uma razão, um porquê de ser.



TEMAS PARA PRODUÇÃO TEXTUAL



Todo livro traz uma série de temas que estimulam o debate e a produção de textos. Colocamos a seguir oito assuntos gerais que estão presentes no romance Cais da Sagração. Pesquise sobre cada um desses temas e depois tente produzir um ou mais textos sobre cada um deles. Praticar é a melhor forma de prepara-se para uma prova de produção textual.

– Homofobia

– Feminicídio

– Ciúmes doentios

– Prostituição

– Movimento feminista

– Mudanças na paisagem urbana

– Violência contra a mulher

– Sociedade falocrática



REFERÊNCIAS



CRUZ, Arlete Nogueira da. Duas Vozes Maranhenses. In: OLIVEIRA, Franklin de. A Saga romanesca de Josué Montello. Rio de Janeiro: Contracapa, 2017

NERES, José. Montello: Múltiplo Homem de Letras. São Luís: Jornal do Maranhão, nº 94 – agosto de 2017. p. 15.

NERES, José. Montello: O Benjamim da Academia. São Luís: Carajás, 2008.

MONTELLO, Josué. Cais da Sagração. São Luís: AML, 2017.

MONTELLO, Josué. Confissões de um romancista. In: Romances e novelas. V. 1. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.

OLIVEIRA, Franklin de. A Saga romanesca de Josué Montello. Rio de Janeiro: Contracapa, 2017.

ROCHA, Vera Figueiredo. As múltiplas faces da mulher em Josué Montello. Mossoró: Coleção Mossoroense, 1997.

SILVA, Régia Agostinho. Josué Montello: entre sobras, história e memória. In: CAVALCANTE, Dino e NERES, José (orgs.) O século XX e a literatura maranhense – reflexões sobre a narrativa em prosa. São Luís: EdUfma, 2016.







Publicado por: NERES, josé.

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