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CRíTICA AO ESPETáCULO "PãO COM OVO - A VINGANçA DE Zé MARIA", POR KIL ABREU - 11.11.2015 às 13:52:36

Por: Assessoria de Comunicação

X Semana de teatro no Maranhão
Crítica – “Pão com ovo – a vingança de Zé Maria” (Grupo Santa Ignorância – São Luis, MA)

De Artur de Azevedo ao besteirol, caminhos do cômico popular

Kil Abreu*

As peripécias de Clarisse, Dijé e Zé Maria, personagens do espetáculo que abriu a X Semana de teatro do Maranhão, são apresentadas pelo grupo Santa Ignorância como uma ‘comédia de costumes’. Se o ponto de vista for o da estrutura dramatúrgica, entretanto, a filiação anunciada é imprecisa. Sobretudo porque a unidade de ação experimentada por um Martins Pena ou um Artur de Azevedo não dialoga muito de perto com a forma livre da montagem. Nela um fio da meada narrativo, que de fato está lá, não esconde a sua contraface: a vocação para ser uma sequência de esquetes cômicos e não uma história redonda, com começo, desenvolvimento e fim. Alguns personagens pulam de uma situação a outra (e às vezes ficam pelo caminho) e outros vão chegando mais ou menos desavisadamente; e há ainda a participação de artistas que não são personagens mas aparecem em números pontuais. Como por exemplo uma dupla de cantores mirins ou um cantador de bumba-meu boi e seus músicos (não os nomeamos aqui porque o material enviado pela produção da Mostra não os cita). É um formato bem mais anárquico, pois. O que talvez seja o esperado, nenhum problema em principio.
O mote do espetáculo é a convivência e quiproquós passados por duas ‘amigas’, funcionárias públicas, uma aparentemente “mais pobre” que a outra, e suas famílias, amigos, paqueras, ficantes, amantes e etc, na paisagem física, geográfica e humana da São Luis atual, sob certo ponto de vista e em chave de comédia popular. E é este espirito de um cômico popular o que talvez estimule, aí sim, um diálogo mais factível entre momentos bem distantes do teatro nascido em terras maranhenses. Pois, não é outro senão esse mesmo gosto (mas não na mesma forma) pela observação dos costumes a que a Santa Ignorância se dedica agora, o que disparou o talento de Artur Azevedo, na segunda metade do Séc. XIX, primeiro no Maranhão e depois no Rio de Janeiro, onde ele desenvolveu e solidificou sua carreira.
Azevedo, como sabemos, foi praticamente obrigado a partir daqui em direção à Corte. Entre outros motivos justamente porque perdera o emprego (era copista de repartição) por meter-se vez em outra a escrever satiricamente, observando o comportamento humano na São Luis da época. Mais popular que o precursor Martins Pena, é Artur quem vai consolidar aquele gênero agora convocado pelo grupo de Cesar Boaes , fazendo a crônica da vida social do Brasil a partir do olhar sobre a sociedade carioca, na passagem para o período Republicano. Então o que de imediato chama a atenção é o grupo retomando de modo próprio essa linhagem de uma cena popular de longa data (ainda que não nas mesmas coordenadas de linguagem). E, nesta apresentação pontual, no teatro ‘Arthur Azevedo’! .
Se por um lado a linguagem da montagem de agora não está em linha reta com aquela de outros tempos, por outro sobrevive como laço distante o mesmo desejo de levar ao palco certo contexto local razoavelmente desenhado, onde as situações e os tipos sociais giram em torno de coisas como amores fora da ordem e outros desvirtuamentos da moral vigente. Isso se dá através da caricaturização do comportamento , suas normas e transgressões, especialmente em torno das representações quase sempre críticas dos lugares de classe e da vontade de ascensão social. É o que move, em síntese, o espírito da Comédia de costumes e o que movimenta também, em chave própria (bem mais virulenta), o trabalho atual da Santa Ignorância. Para ficar em um único exemplo entre tantos possíveis: resguardadas as diferenças de época, a ‘quase nova rica’ Clarisse de ‘Pão com ovo’ é bisneta, em termos históricos, do comendador Joaquim José de Oliveira, de ‘O Bilontra’ (de 1886, um dos primeiros grandes sucessos de Artur Azevedo). Trata-se de um novo rico carioca que quer ser Barão a qualquer custo, acaba indo comprar o título, mas cai nas mãos de um impostor, que passa-lhe a perna. Nos dois está a marca mais que brasileira de ascensão pelo título de empréstimo, pela notabilidade sem esforço, como explicava Sergio Buarque de Holanda.
Estas semelhanças com algumas das características da Comedia de costumes acabam aqui. Para que, quem sabe, o espetáculo abra diálogo com outras fontes, intuitiva ou deliberadamente. A mais evidente entre elas é a do humor televisivo, para muitos já grosseiro e aqui certamente ainda mais mal educado. A marcação rudimentar das cenas no espaço, em planos quase todos frontais, como se houvesse uma câmera a desenhar o contexto , nos diz isso. Outra relação possível, mas mais distante, é com o besteirol, movimento do teatro carioca oitentista com o qual este espetáculo tem em comum a estrutura de fragmentos, de sketches, e o desprezo pelo teatro com verniz de alta cultura. Mas, dele se distancia quanto ao ponto de vista. O besteirol mantinha em geral um imaginário basicamente de classe média, o que não é o caso aqui, senão como atualização paródica.
Como o nome já indica, a montagem da Santa Ignorância segue mesmo é a formalização de uma estereotipia decididamente mais ligada à representação das camadas populares, do povão. E agora, diferente de um Miguel Falabella, por exemplo, a piada parece nascer em espelho, a partir da própria condição, e isto parece dar uma camada de legitimidade ao representado. A auto referência e a auto ironia acentuam o efeito cômico. Mesmo assim, fosse em São Paulo, mesmo sob a guarda de um enorme sucesso popular como parece ser, o espetáculo certamente já teria sido embargado pela militância do Movimento negro e variantes. Talvez seja o preço a se pagar quando se cria no fio da navalha, nos limites mais delicados entre a inocência de certo humor e a possibilidade de que ele acabe disseminando involuntariamente todo tipo de preconceito.
Em outra perspectiva, no entanto, o espetáculo também pode ser tomado como uma fala politizada, assumindo totalmente o lugar à margem em que aquelas representações sociais foram colocadas. Assim, toda a sexualização à beira do escatológico, o caricato e o quase grotesco seriam resultados de um ato, o de ‘auto explicitar’ uma condição, mas como uma operação afirmativa, contornando o lugar da vítima que é muitas vezes o esperado e, paradoxalmente, também pode ser o mais impotente entre todos.
De uma maneira ou de outra, essa mistura de revista do ano, show de humor musical e stand up comedy tem no seu resultado cênico ao menos duas forças opostas. De um lado o grande talento cômico dos seus intérpretes, Cesar Boaes e Adailson Santos, bem apoiados por Charles Junior. Mesmo nas excessivas duas horas e tanto de espetáculo são raras as ‘barrigas’, permanecendo a cena bem viva durante toda a representação. O que se deve em muito ao despudor que só os grandes palhaços conseguem manipular com graça (e haja despudor!); também ao ‘feeling’ para tirar das situações um frescor renovado, e à vocação para o improviso sempre certeiro – características dos melhores atores do gênero.
Por outro lado estando o diretor Cesar Boaes em cena e com tantas tarefas a tocar , a montagem ressente-se claramente de um olhar de fora. O fato de quase tudo ter efeito não quer dizer que o conjunto seja o melhor resultado possível. Nossa impressão é a de que o espetáculo, se mais enxuto, se diria melhor. É evidente que há um capricho grande no alongamento de certas cenas e números que certamente se diriam num tempo mais curto, sem prejuízo ao riso.
Por fim, e talvez mais importante, valeria a pena pensar na presença de um dramaturgo que dialogue com o gênero e com o universo de interesse da companhia. Que possa ser um parceiro de trabalho, possa ajudar a pensar as linhas de força e a maneira como os quadros, mesmo na forma de fragmentos, se totalizem de um modo mais consequente, com melhor unidade. Isto não é uma ‘regra’, algo que deva se aplicar a qualquer caso. É simplesmente o que já está intuído na própria montagem, que inicia anunciando os seus motes, mas tem grande dificuldade em articula-los na sequência. Se por um lado no formato atual não há grande prejuízo ao efeito cômico, por outro a procura por uma dramaturgia menos rudimentar, mais ambiciosa do ponto de vista da estrutura narrativa, pode certamente dimensionar o já vivíssimo trabalho da Santa Ignorância em outras experiências ainda mais interessantes com a cena e com o público. Isto sem largar mão do fundamental, que já foi alcançado pelo grupo: a vocação inequívoca na lida com o popular, com a observação da vida e a sua tradução nos termos que já estão apontados e que salvo engano estão a caminho de demarcar o espaço de uma construção de linguagem que pode fazer diferença.
*Kil Abreu é jornalista, crítico e pesquisador. Curador de teatro do CCSP (Centro Cultural São Paulo).

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