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CRíTICA AO ESPETáCULO “AS 10 COISAS QUE MEU PAI DEVERIA TER OUVIDO ANTES DE TER IDO PARA A GUERRA”, POR KIL ABREU - 15.11.2015 às 09:50:47

Por: Assessoria de Comunicação

X Semana de teatro no Maranhão
Crítica: “As 10 coisas que meu pai deveria ter ouvido antes de ter ido para a guerra” (Grupo Drão – São Luis, MA)

Sobre teatros e escolhas
Kil Abreu


O teatro é uma arte curiosa. O seu barro nem sempre é fácil de modelar e a existência de formas (dramatúrgicas, cênicas) já bem fincadas na tradição não são garantia de que os resultados atuais dialoguem efetivamente com os moldes de origem. Este ajuste é caprichoso por muitos motivos: porque em geral as necessidades (históricas, expressivas) que originaram as convenções antigas nem sempre são as mesmas das atuais; porque mesmo quando há parentesco os modos, os repertórios e os instrumentos de formalização testados pelos artistas em geral diferem muito; e, talvez mais importante, porque os contextos em que a criação se dá oferecem determinados campos de sentidos que legitimam as obras, as tornam factíveis à luz de determinados momentos, mas nem sempre de outros.
“As 10 coisas que meu pai deveria ter ouvido antes de ter ido para a guerra”, o espetáculo do grupo Drão, de São Luis, está em uma encruzilhada-problema desse tipo: ensaia apoiar-se nas convenções de uma escola histórica, a simbolista, e através de certa fábula que roça o fantástico planeja criar um teatro potente. Os três atores, André Dahmas, Felipe Correa e João Cosme, sob texto e direção de Ivy Faladeli, representam (é uma aproximação, pelo que se pôde entender) a história de uma família às vésperas do final de uma guerra (pelas referências supõe-se que seja a Segunda grande guerra). No andar das cenas vamos descobrir que o pai, para preservar os filhos homens do envio aos campos de batalha, os cria como meninas. E doentes. Uma delas permanece a vida toda em um aquário a ponto de virar sereia. E o próprio pai se traveste de mãe (uma mãe perversa, diga-se) para dar consequência à farsa. O desenvolvimento dá conta de mostrar como esta representação dentro da representação está prestes a ser desmontada.
Sem entrar nos detalhes históricos que oportunizaram a emergência do simbolismo (aliás, uma escola pouquíssimo visitada, quase inexpressiva no teatro brasiieiro), podemos dizer que a montagem do Drão melhor se aproxima das suas coordenadas formais no aspecto visual, que através de certa ambientação soturna quer criar sinestesias envolvendo sons, luz cenografia e deslocamentos. A caminhada no escuro feita pelo público, cruzando a plateia do teatro até o palco onde a encenação acontece provavelmente tem a ver com isso.
Entretanto, este aspecto, valorizado na montagem do grupo maranhense, só tem efeito quando acompanhado dos outros elementos que perfazem a poética, e que aqui já não vão encontrar eco: o gosto pelo lirismo subjetivo, que substitui a ação dramática tradicional pelos “estados d’alma”; as indeterminações de espaço e tempo para que a abertura poética seja mais efetiva; o desenho de personagens rarefeitos, sem gênese e cuja psicologia está centrada na exposição dos estados íntimos, através da auto reflexão filosófica, bem mais que nos frutos da ação enquanto conflito dramático, característico do teatro tradicional. E, por fim, o lugar para onde todas essas coisas convergem: certa percepção marcadamente decadentista do mundo e da vida, que era resultado não de um choque imediato com o outro, mas com a própria consciência, pessimista, a respeito da precariedade do existir.
No trabalho do Drão o que se percebe é que há intuições em alguns destes caminhos, mas perturbadas por direcionamentos formais que as desvirtuam e as colocam por vezes em rumos opostos aos que supostamente levariam ao projeto de origem. Assim, por exemplo, a ambientação, que aguçaria na plateia um entendimento peculiar através dos sentidos, torna-se apenas formalismo, com um plano de luz que acende e apaga refletores em uma velocidade que nada tem a ver com o sugestivo; o subjetivismo lírico e a concepção de dramaturgia , em que pese um ou outro lance ‘fantástico’, se avizinha, no desenho geral, à estrutura do melodrama, sua rotina e apelos (por ex, o fundo musical demarcando os momentos dramáticos ou violentos); a entonação e gestualidade over dos atores obedecendo (e redundando) à risca os estados emocionais das personagens substitui a sintonia fina das ambiguidades; e a própria concepção fabular já se distancia bastante do relato lírico-filosófico. Tudo isso acaba colocando o espetáculo em um meio caminho. Que acidentalmente poderia resultar (quem sabe?) um teatro interessante e diferente. Mas, que no caso ainda está por alcançar a potência necessária de dentro da estranheza pretendida.
Para voltar ao princípio: em crítica se diz que a coisa mais delicada entre todas é questionar, antes mesmo dos resultados, as escolhas feitas pelos artistas. Afinal, as escolhas têm motivações que só dizem respeito aos próprios artistas. Ainda assim, e correndo o risco (como se não bastasse) de mais este enquadramento, propomos pensar sobre o que leva um grupo de teatro a escolher este material de trabalho. Na ausência do espaço para ouvi-los, para uma interlocução mais viva entre nós, espectadores, e os artistas, tentamos responder: talvez a experiência não se justifique com nenhum motivo em especial, e tudo bem (este é o ponto de onde devemos sempre partir). O puro jogo com a linguagem é não só legítimo como necessário. É dele que, aqui e ali, agora ou adiante, nascem obras importantes e mobilizadoras. Mas, no caso, como se trata de uma poética tão enraizada em certas circunstâncias e anseios diante do mundo, avançamos perguntando : por que não fazer o rebatimento histórico? Qual seja: por que não tentar fazer minimamente , pelos meios próprios do teatro, um diálogo daquelas inspirações com a época (a nossa)? O que se quer quando se leva à cena esta fábula, não num mundo em abstrato, mas em uma realidade precisa, a nossa? Faz algum sentido este contraste com o contexto? Sim? Não? Por que? O que se quer sinalizar, enfim, dali, a respeito da vida?
Talvez estas sejam perguntas ociosas. Mas, talvez possam funcionar como provocações para pensarmos sobre este tema das escolhas, tanto quanto sobre a disposição do artista diante da arte, do trabalho, da energia vital empenhada no fazer e no assistir. Em suma, suas relações com o mundo.

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